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Eutanásia

29/08/2017

No inconsciente coletivo dos povos antigos, a morte significava uma libertação dos pesares e dores deste mundo; o término de uma jornada. Para a grande maioria, a passagem para o mundo dos mortos, os céus (ou infernos), a migração para moradas desconhecidas e anunciadas pelos religiosos, profetas, escritores, dramaturgos, visionários; um ou outro ícone interligado com os incógnitos e inexplorados mundos celestes.

Inquestionavelmente, um fenômeno inevitável a todos os viventes submetidos e nascidos no orbe terrestre, seja pela entropia (desgaste natural das células), doenças (naturais ou provocadas), eventualidades (acidentes inesperados ou previstos), fatalidades (guerras, esportes radicais, ocorrência diária) ou pelo apressamento (suicídio, drogas, álcool, sentimentos e emoções negativas etc).

De todas as formas abordadas, sempre a dor está presente, que é outro fenômeno psicológico/emocional/natural do qual ninguém se exime e que, geralmente, vergasta o íntimo de quem permanece para continuar ou, quem sabe, parte “desta para melhor”.

Rara exceção, a maioria das religiões estabelecem a VIDA como bem essencial, inerente aos seres biológicos que por aqui transitaram ou transitam, tendo com fundamento comum e basilar, a previsão de uma alguma espécie de sobrevivência além do lapso de tempo existente entre o nascimento e o evento denominado morte.

Juridicamente, sobremaneira, algumas constituições estipulam em seus códigos ou constituições, mecanismos normativos de amparo à VIDA, no sentido de garanti-la, protegê-la de alguma forma; é o caso da vigente Constituição Federal brasileira que, em seus fundamentos a dignidade do ser humano (Inciso III do Artigo 1º) e, subsequentemente, firma como DIREITO, a inviolabilidade da VIDA (Artigo 5º).

Opiniões divergem quando ao assunto é 'direito de morrer', por um lado e 'direito de deixar morrer ou matar', do outro.

Vejamos!

Quando aportamos em um corpo físico, pleno ou defeituoso, é forçoso deduzir que viemos de algum lugar e para cumprir um determinado lapso de tempo no planeta, seja ele de qual duração for.

Zigmunt Bauman, Sociólogo polonês, falecido neste ano, em seu livro “Mundo líquido”, explora a rápida mutação da sociedade moderna, inserida numa espécie de “paranoia” pelo culto do corpo e das suas necessidades, gerando a transformação da matéria para atender a demandas passageiras e que não permitem a solidificação de situações sociais.

Não raro, segundo Bauman, acentua-se o individualismo, ressaltando-se as três maiores chagas da humanidade: Vaidade, orgulho e o egoísmo, resultando na iliquidez, instabilidade e incerteza nas relações entre indivíduos e povos.

A VIDA moderna, grosso modo, é o objeto principal abordado por Bauman na maioria das suas obras (mais de 50 livros); tornou-se frágil e insignificante diante da aceleração dos mecanismos produtivos, em detrimento do psiquismo coletivo, que parece rastejar diante de outro elemento: A IGNORÂNCIA, acerca do Todo que nos envolve, fazendo parecer que, o avanço material cresceu em progressão geométrica em relação ao crescimento moral/emocional que, tardia e lentamente, evoluiu em progressão aritmética.

Então, sabemos o momento (mais ou menos) exato de quando aportamos aqui, estampado em nossas certidões de nascimento, por notícias de nossos pais e atestados por um Cartorário. Mas, nenhum de nós tem a intendência de quando deixaremos a existência biológica. Em outras palavras, se a chegada não nos pertence, nos parece que a saída, ou seja, a morte, muito menos, por ser obrigatória, gerida por Leis das quais não temos intendência, nem controle.

Somente o interregno, o meio, a sequência de atos e omissões que praticamos durante o curso da existência, é que nos cabe a responsabilidade da produção, todavia, com inúmeras exceções, citando como exemplos, as eventualidades já comentadas acima, tais os casos fortuitos (greve, guerras etc) ou de força maior (desastres naturais etc ) que, sobremaneira, interferem o curso e aparentam até, subverter a aparente ordem das coisas.

Outro fator de não menos importância é que, nós, não tivemos (como não temos) capacidade para nos autocriar, formar nosso corpo, estabelecer como ele será, que rudezas ou levezas enfrentará e muito menos o tempo que ele resistirá ao tempo, doenças ou intercorrências.

Assim, o corpo, instrumento que habitamos provisoriamente, deixa entrever que nos é fornecido como por empréstimo, cedido por algo ou alguém, para execução de determinadas tarefas, usufruir ou sofrer limitações no cumprimento delas ou até mesmo ficar privado de maior mobilidade, solapado por doenças hereditárias ou adquiridas.

Se acreditarmos apenas na materialidade e na unicidade da existência, basta esperar o dia de partir, suportando todos os revezes que haveremos de passar. Mas, se o curto espaço de tempo chamado VIDA tiver um “antes” e um “depois”, as nuvens obscuras começam a se dissipar para uma maior compreensão em torno do real sentido DELA.

Por outra, pela teórica limitação de uma só experiência biológica, aceitando-a, derrogaremos quaisquer tipos de LEIS ou de JUSTIÇA plena que, diferente da nossa, seja imutável e equilibrada.

Estando em um corpo alquebrado ou doentio, muitos se deparam com realidades assombrosas; afinal, ninguém de sã consciência, pediria ou gostaria de adquirir doença degenerativa, paraplegia ou tetraplegia, sofrendo anos a fio com seus efeitos, por exemplo.

Pela limitação e unicidade da existência, como se explicariam as deformidades ou doenças que já vêm com suas “vítimas”?

Seria preciso existir uma causa (ou várias) que justificasse(m) tal ou tais sortilégios, mesmo que não quiséssemos admitir o Deus (monoteísmo católico) ou os deuses das religiões (politeísmo), segundo constam, justos e soberanos.

Excluindo a preexistência e uma força organizada, inteligente, suprema e essencialmente justa, está claro que uma só vida no planeta seria absurdamente incoerente.

O fato é que, não suportando as intempéries dessas experiências, muitas pessoas se arrostam no direito de tirar a própria vida, permitir que o façam ou, outros, fazê-lo pelo viajante que sofre em um corpo doentio.

Estão no tabuleiro o “direito de matar ou morrer.”

Pelo exposto, está nítido que algumas sociedades chegaram ao senso de que é inadmissível tirar a própria vida e a de outrem.

Num dos extremos está o foco destas considerações: A Eutanásia.

Segundo dicionário corrente, significa: ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis; em sentido jurídico amplo, direito de morrer ou matar e etimologicamente vem a ser o que os gregos denominaram “boa morte” (1).

Necessário, todavia, fazer algumas distinções, para efeito didático, pois é subdividida em ATIVA (quando existe algum tipo de acordo entre aquele que pretende deixar a vida e os que o assistem); a PASSIVA (interrupção de todos os procedimentos clínicos ou farmacológicas para manter a vida do paciente); SUICÍDIO ASSISTIDO (que se configura com a vontade deliberada do candidato a morrer, porém, assistido por parentes, amigos e médicos.

Conforme as crenças milenares e tradicionais, como no budismo (2), cada um de nós está em rápida passagem, adotando um corpo, que mais se assemelha a uma roupa, tantas vezes quantas forem necessárias até completar a evolução, quando sairemos da Sansara (3).

Numa análise rápida, no Catolicismo o ser humano, criado por Deus, teria uma só existência e, a depender das suas relações quando em vida, sobreviveria depois da morte corporal, ascendendo aos céus dos eleitos ou descendo aos infernos dos culpados, de forma eterna.

Fruto de dissensão, as crenças neopentencostais (denominadas evangélicas) têm malhado no primitivo dualismo de Zoroastro, informando aos seus fiéis acerca do bem e do mal, onde um ser infernal, tão supremo quanto Deus, guerreia eternamente pelas almas dos homens, cuja sorte, depois da morte, será demandada em conformidade com o bem e mal proceder, determinando a sorte dos que irão para o céu ou para o inferno.

Das três correntes citadas, todas têm um ponto comum: a sobrevivência do ser depois da morte do corpo.

Fazendo contraponto, eis que no Século XIX surge a Doutrina dos Espíritos, Doutrina Espírita ou Espiritismo, equivocadamente intitulada de Kardecismo que, em rigor, consistem nos ensinamentos dos Espíritos, “as almas dos homens que aqui viveram”, compilados, codificados por seu organizador: Allan Kardec.

Trata-se de complexa doutrina, que se apoia na existência de Deus, na reencarnação, pluralidade de mundos habitados, multiplicidade de vidas e a comunicabilidade com os espíritos; de simples compreensão, baseada na racionalidade, surgida como ciência empírica (prática), sustentada por profundas bases inteligíveis, fruto de reflexões filosóficas e que, podem produzir inevitáveis resultados essencialmente morais, exemplificados por Yeshua Ben Yussef, ou Jesus.

Dizem os espíritos, em resposta direta aos questionamentos feitos por Kardec, VIVER é o “primeiro de todos os direitos naturais do homem” (4); o corpo, o instrumento emprestado para realizarmos tarefas ou missões, passarmos por provas e expiações e o cerne de sua formação difere do princípio inteligente, sem que tenhamos o direito de tirar a própria vida, asseverando que, aqueles que assim o fazem, transgredirão as leis eternas e imutáveis, criadas por um ser supremo e inteligente (Deus, ou o Pai, segundo Jesus).

Em assim procedendo, cada indivíduo traçará existências posteriores de sofrimento e reparação, cujo grau é de acordo com os níveis de gravidade das infrações.

Consoante Leis que presidem a mecânica celeste, os mundos e seres; uma delas de JUSTIÇA, AMOR e CARIDADE, cada um recebe “segundo suas obras” (5).

Parecerá claro a todos os que resolverem estudar a fundo os postulados da Doutrina Espírita que, se ninguém tem o direito de tirar sua própria vida ou a alheia, também não o tem em relação à sua, nem permitir que o façam, sendo a reencarnação uma bênção, uma concessão (e não um castigo) onde somos convidados a reparar faltas de vidas pregressas, reaprender o respeito às Leis eternas ou cumprir missões redentoras, em auxílio a outras criaturas.

Resvalando na máxima bíblica: “A felicidade não é deste mundo” (6), fica evidente que os antigos já detinham a noção acerca da transitoriedade da passagem terrena, como um momento efêmero no bailar dos tempos, onde os viventes deveriam bem proceder, para aspirar méritos posteriores.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, essencialmente, dedicado explicar as máximas e parábolas do mestre galileu, o espírito de S. Luís, em abalizada resposta à pergunta de Kardec, quanto à necessidade da reencarnação, frisa o que dissemos acima:

“A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, e toda preferência, uma injustiça; mas a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório.

É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo. – São Luís. (Paris, 1859.)

Do mesmo livro, no Cap. V- Bem-aventurados os aflitos, as almas dos homens encarregadas de repassar as revelações até então ocultam, discorrem sobre o sofrimento da seguinte forma:

“O homem que sofre se assemelha a um devedor de avultada soma o homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado”

(...) “Tal o sentido das palavras: “Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados. São ditosos porque se quitam e porque, depois de se haverem quitado, estarão livres.”

(…) Deveis considerar-vos felizes por sofrerdes, visto que as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as vossas passadas faltas vos fizeram contrair (…) suportadas pacientemente na Terra, essas dores vos poupam séculos de sofrimentos na vida futura.

Novamente, Kardec, arrematando, interrogou os emissários do espaço: “Será lícito abreviar a vida de um doente sem esperança de cura?”, obtendo como resposta o seguinte:

“Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode Ele conduzir o homem até a borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar ideias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe haja soado a hora derradeira. A Ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?”

Diante da seguinte interrogação: “Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?” (7), ripostaram os espíritos:

“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência. E quem poderá estar certo de que, malgrado às aparências, esse termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?”

Relembrando Jesus, o mesmo assegurou: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida pendê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo Evangelho, salva-la-á! Portanto, de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (8)

Por esse viés, finalmente, resgatando o que também disposto no título 'Obreiros da Vida Eterna' (9), chega-se às seguintes conclusões:

I – O 5º mandamento: “Não matarás”, é amplo, indicando que nenhuma criatura tem o direito: primeiro, de matar; segundo, de permitir que se deixe matar e, terceiro, de auxiliar a morrer, antecipando o momento da morte;

II – Compete à força cósmica, a quem Jesus preferiu chamar de “Pai”, a maioria chama de Deus e outros chamam por diversas denominações, o controle de entrada e saída do ciclo convencionado como VIDA, não nos pertence;

III – Esse ciclo, como outras circunstancias e sistemas que envolvem a VIDA, seja ela na matéria biológica, celeste ou espiritual, estão submetidos a Leis preexistentes e imutáveis;

IV – Inexiste quem possa assegurar que alguém, diante das dores ou na iminência de morrer está fadado a partir em momento previsto por qualquer um de nós; senão, quando a força que nos rege aprouver;

V – Tanto o suicídio (voluntário ou involuntário) e a Eutanásia, são formas que interferem na depuração do espírito em dívida para com essas mesmas Leis;

VI – A interrupção, seguramente, gerará para o espírito comprometido com o passado, dificuldades de retorno ao plano espiritual de onde veio, cabendo-lhe completar, de maneira mais dificultosa a jornada cerceada;

VII – Aqueles que assistem, permitem ou manobram para interromper a VIDA do candidato à morte, de certa forma, se comprometem com a justiça soberana que açambarca e preside todos os sistemas, criaturas e mundos;

VII – O moribundo, mesmo que em estado terminal, pode recuperar-se, ainda que por instantes, sendo esses valiosos para aquele que necessita completar sua reparação ou aprendizado;

VIII – Àqueles que proporcionarem mecanismos de apressamento, podem incorrer estar reservado um destino cruento, vez que se trata de crime contra a vida. Podem contraír para si, existência(s) porterior(res) de reparação da falta cometida, sendo levado em conta o grau de comprometimento e de intenção.

No mais, remetemos ao leitor o exame apurado acerca da temática que, por sua vez, é complexa e delicada.

Muita paz.


 

SÉRGIO LUIS

Escritor, palestrante, dirigente de casa Espírita


 

Referências bibliográficas:

(1) Dicionário Houaiss

(2) Budismo – Budismo para leigos – Stephan Boydian/Jonathan Landaw – Ed. Alta Books

(3)Sansara – Ciclo das existências nas quais reinam o sofrimento e a frustração engendrados pela ignorância e pelos conflitos emocionais que dela resultam – Uma breve História do Mundo – Geoffrey Blaynei – Ed. Fundamento.

(4) Pergunta 880 de 'O Livro dos Espírito'- A. Kardec – Ed. Petit.

(5) Mateus, 16:27, citação de 'Bíblia Sagrada' – Ed. Santuário de Aparecida/SP - 1982

(6) Citação do Rei Salomão, filho de Davi em. Livro do Eclesiastes – Cap. 2, 4:11

(7) Pergunta 953 de 'O Livro dos Espiritos'

(8) Marcos, 8:35, citação de 'Bíblia Sagrada' – Ed. Santuário de Aparecida/SP - 1982

(9) 'Obreiros da Vida Eterna' – espírito André Luiz, psicografia de Chico Xavier, Ed. FEB


 


 


 


 


 

Por: 
Sérgio Luis